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San Cai João Borges, 05 de Abril de 2016

Como se referiu na cultura do extremo oriente o Homem diz-se estar entre o Céu e a Terra. Isto é o homem é produto de, e está sujeito ao longo da sua vida à influência do Céu (princípio yang) e da Terra (princípio yin). O Céu é como que uma espécie de pai energético e a Terra como que uma espécie de mãe energética. Estão presentes na nossa génese material e espiritual e a sua influência é também permanente ao longo da nossa vida. De que forma essa influência se faz sentir?

Sorte do Céu
Comecemos pela sorte do Céu. Esta é a “sorte” mais próxima do conceito de sorte em termos da cultura ocidental. Todos nós temos consciência que nascemos diferentes, com capacidades e destinos diferentes. Isto é não somos todos iguais à nascença. Cada qual nasce com um contrato de vida, algo que devemos seguir como forma de desenvolvimento e realização pessoal assim como fonte de felicidade. Uns nascemos para para sermos bons pais de família, outros para sermos jogadores de futebol ou mestres de Feng Shui. Todos nós também ao longo da vida temos que consciência que há anos mais favoráveis em termos financeiros outros menos favoráveis em termos de amor e relações humanas. Uns anos são bons, outros são difíceis. A sorte do céu é estudada no pensamento oriental essencialmente em termos de “astrologia”.

Sorte da Terra
Esta sorte é um conceito mais estranho à nossa forma de pensar científica e analítica. A terra emite continuamente energia sob diversas formas, nomeadamente através do seu campo electromagnético. Certos locais da terra são melhores para determinados indivíduos, outros são menos bons ou nefastos. O mesmo se aplica às direções, ambos fatores com a variável do tempo. Praticamente todas as culturas estudaram esta influência. No ocidente desenvolvemos diversas disciplinas tais como a radiestesia, a geobiologia e também a arquitetura sagrada. A questão da arquitetura é especialmente relevante visto que é em espaços construídos que passamos a maior parte do tempo. A arte que tradicionalmente estuda esta influência na China é o Feng Shui clássico.

Sorte do Homem
Este é o aspeto com o qual nos relacionamos mais fácilmente. Todos nós exercemos o livre arbítrio e temos noção que a vida é construída com o esforço próprio e as decisões que tomamos todos os dias. Compete-nos a nós trabalhar e perseguir objetivos. Quando o homem age influencia também a terra ou o céu. Por exemplo ao escolhermos um determinado tipo de alimentação influenciamos também a sorte da terra; quando escolhemos uma determinada prática espiritual influenciamos também a sorte do céu. O homem é o pivô entre estas duas tendências primordiais (Céu e Terra).

San Cai
Sendo assim para termos um controlo mais efetivo da nossa vida devemos trabalhar com estes três aspectos e não apenas com um deles. Isto é o processo de mudança da vida para melhor deve ser abrangente. Isto até porque existe uma relação direta, uma espécie de “sincrocinidade” entre eles. Uma analogia é “quando uma coisa corre mal, tudo corre mal” ou “quando algo corre bem, tudo flui positivamente”. O que se observa muitas vezes em consultas de Feng Shui é que quando a pessoa está num ciclo astrológico menos bom, vive em casas menos boas e toma também as decisões erradas. O oposto também se verifica. Por outro lado quando a pessoa muda a casa para melhor, a sorte do céu sorri e a pessoa geralmente começa a tomar decisões produtivas. Os diferentes aspetos da vida estão em sincronia.

O feng shui clássico estuda a sorte da terra de uma forma pura, ou seja como a casa afeta a vida de cada um dos habitantes. Em feng shui clássico a intenção não é necessária e a pessoa não pode não estar envolvida de uma forma consciente ou inconsciente. Se por exemplo a nossa porta principal está com uma combinação 5-2 (significa doença e declínio) existe uma tendência para esta energia se manifestar na vida dos habitantes. Se por outro lado um consultor efetuar mudanças e a porta passar para 6-8 (significa prosperidade) todos os habitantes têm tendência para serem beneficiados quer acreditem no processo quer não. Em feng shui clássico há rituais mas a intenção não está no centro.

O feng shui contemporâneo não é uma abordagem única mas sim um leque vasto de abordagens, umas muito válidas, outras nem por isso. Neste artigo concentremo-nos no feng shui simbólico que é o que se ensina na escola nacional. O Feng Shui simbólico é essencialmente um processo de auto conhecimento e uma forma de desenvolvimento pessoal que utiliza a casa como veículo para se chegar ao consciente e sub-consciente de cada um. A auto-análise e auto-reflexão inerentes levam depois a tomadas de decisão positivas com consequentes melhorias da vida dos habitantes. Mesmo quando se utilizam determinados setores da casa para se colocarem curas simbólicas, a pessoa está sempre no centro do processo.

Enquanto que em feng shui clássico se pode fazer feng shui sem intervenção ou presença dos habitantes em feng shui simbólico tal não é possível. Este tipo de feng shui é essencialmente sorte do homem. Sendo assim estes dois tipos não são nem podem ser comparáveis. Funcionam em níveis distintos. No feng shui clássico as melhorias decorrem da absorção de um qi mais positivo. Aqui “Qi” é no sentido estrito do termo, para os conhecedores da matéria relacionada com as “partículas pré-atómicas”. Ter uma consulta de feng shui é como que fazer acupuntura numa casa. No feng shui simbólico as melhorias decorrem essencialmente pela melhoria da mente das pessoas e das suas emoções. Ter uma consulta deste tipo tem parecenças com terapia emocional. Como refere a Sofia Batalha na primeiro volume da coleção casa simbólica, "O feng shui simbólico interpreta a casa como lar e o feng shui tradicional ou clássico analisa a casa como estrutura física e energética, que suporta o lar".

Conclusão
Em forma de conclusão deixamos aqui um conceito escrito pelo mestre yen pen na introdução do seu clássico “Er Zhai Shi Yan”. Para o feng shui (clássico) funcionar, a mente deve ser pura e as intenções devem ser puras, caso contrário o céu não favorece. Por outro lado se funcionarmos exclusivamente com o fator humano, um quarto com estrela 5 irá continuar com essa estrela negativa. Trabalhemos a pessoa e o seu meio ambiente de forma integrada.